quinta-feira, 7 de abril de 2016

Negro Drama: Entenda o preconceito sofrido por gays negros

Por *João Marinho em 19/02/2010 às 19h28

Negro Drama: Entenda o preconceito sofrido por gays negros

Análises sócio-históricas ajudam a entender preconceitos sofridos por negros gays.

Negro é silêncio, é luto. 
Negro é a solidão. 
Negro que já foi escravo. 
Negro é a voz da verdade. 
Negro é destino, é amor. 
Negro também é saudade.

(Elymar Santos, "Sorriso negro")

Enquanto esta matéria era escrita, estava em curso a eleição presidencial norte-americana. No dia em que ela foi fechada, Barack Obama, um negro, se tornou presidente do país mais poderoso do mundo.

Lá, como cá, muitos negros estão em festa. A vitória de Obama carrega um forte simbolismo. Afinal, falamos de uma população historicamente alijada de direitos, vítima de preconceitos e com dificuldades no acesso a bens, serviços e ao poder. Quando, quando à cor da pele, soma-se a orientação sexual ou identidade de gênero diferente da maioria, as coisas tendem a piorar. Lá, como cá.

Se, no Brasil, não dá para negar o duplo preconceito a que negros LGBTs são submetidos, quais seriam, estruturalmente, as razões que levaram, ou levam, a essa situação? E o que tem sido feito, em termos de mobilização social, para alterar esse quadro? É sobre isso que pretendemos lançar luz.

Mitos e histórias

Historicamente, a sexualidade negra, em nosso País, foi marcada pela escravidão. Nesse período, o branco forjou as principais concepções sobre ela que ainda dominam nosso imaginário. Sim, pois, embora os negros tenham trazido seus costumes da terra natal, foram as idéias, e preconceitos do colonizador que acabaram por modelar a abordagem sobre o assunto. Um exemplo é a crença de que, originalmente, não havia homossexuais entre os negros.

No trabalho "Os grupos de homossexuais afro-descendentes e a militância contra homofobia e racismo no Brasil", o historiador Marcelo Cerqueira e o antropólogo Luiz Mott, comentam que "é antigo e persistente o mito da inexistência da homossexualidade no continente negro. Diversas autoridades religiosas e presidentes africanos têm feito discursos iradoscontra gays e lésbicas, associando o amor entre pessoas do mesmo sexo ao colonialismo".

"Oficialmente", continuam os pesquisadores, "teria sido o historiador inglês Edward Gibbon, em 1781, quem primeiro asseverou a inexistência da homossexualidade no continente africano. Esta suposta 'excepcionalidade africana' foi reforçada por diversos antropólogos cegados ainda pela homofobia vitoriana."

"Por trás do mito da inexistência do homo-erotismo na África pré-colonial, estão dois outros mitos: a naturalização da sexualidade dos negros, que, movidos pelo instinto animalesco, desconheceriam os vícios antinaturais dos brancos; e a superioridade física do primitivo africano, avesso à efeminação própria do mundo civilizado", aponta a pesquisa.

Alguma semelhança com os tempos modernos? Milton Santos, 32 anos, presidente do Estruturação, grupo LGBT de Brasília, responde. "Os negros sempre foram tratados como mercadoria, e isso está latente. Os negros se firmaram como resistentes, fortes, guerreiros, potentes e másculos. De repente, surge um gay, que é considerado fraco, impotente e que, no senso comum, vai na contra-mão de tudo que sempre foi ostentado".

Isso ajuda a explicar o preconceito que outros negros nutrem contra negros gays, que passam a ser vistos, por exemplo, como "traidores da raça". "Tenho uma tia que pensa assim", conta o jornalista Emerson Nunes, 33. "Ela convive de boa comigo e meus amigos gays, mas, em vários momentos, deixa transparecer que não aceita o negro ser gay".

Bem-dotados

Depois disso, parece que nós, gays que admitimos a existência da homossexualidade entre negros africanos e brasileiros, "corremos porfora", não é? Ledo engano. Renildo Barbosa, 32, diretor de diversidade do Coletivo de Entidades Negras (CEN) e integrante da Rede Afro LGBT, relaciona a imagem do negro forte e másculo a seu papel como reprodutor nas senzalas: "a 'potência' do homem negro e o 'fogo' da mulher negra são utilizados para manter viva a chama do machismo".

"Não somente homens negros são explorados por seu lado sexual", continua Barbosa, "mas as mulheres negras também, o quenos remete a questões históricas e seculares, de utilizar negros e negras escravoscomo reprodutores e amantes. Os mesmos estereótipos se aplicam aos negros LGBTs, que são tidos como melhores amantes e parceiros sexuais". É daí que saiu aquela velha história do negro machão, ultra-ativo e bem-dotado...

Embora existam outros estereótipos relacionados aos negros - Renildo Barbosa cita, por exemplo, o profissional, "em que somos pensados como trabalhadores braçais ou em posições de comandados" - o do "negão ativo" é tão presente que foi um dos mais lembrados por nossos entrevistados. Tem até quem se aproveite dele. É o caso de Ricardo Lima**, 47, funcionário público. "Uso muito sites de relacionamento e, quando digo que sou negro, vem aquela história do 'você é negro, ativo, pauzudo'". Por sorte, Lima é ativo. No entanto, ele também vê um lado ruim nisso."Quando percebo que, por parte do outro, tudo se resume àquilo, pulofora. Eu me sinto como se fosse um pedaço de carne", conta.

Lima também comenta que o estereótipo pode não ser nada legal para os que preferem a passividade: "Tenho um amigo, negro também, que é 100% passivo. Muitos se aproximam dele acreditando nessa coisa de 'ativo pauzudo' e, quando descobrem, desistem".

Mestra em Educação Brasileira, professora e ativista da Rede AfroLGBT, Negra Cris, 37, acredita que os estereótipos do 'negro bem-dotado' e também da 'negra quente' reafirmam o preconceito racial. "Alguns homossexuais não-negros pensam pelo senso comum e serelacionam com homossexuais negros acreditando nesses supostos potenciais. Claro que os relacionamentos inter-raciais não vão se dar apenas por essemotivo, mas a supervalorização sexual do negro leva à curiosidade e à permanência do senso comum de cunho racista".

Na terrinha

Nesse ponto, é oportuno voltar à pesquisa de Marcelo Cerqueira e Luiz Mott e perguntar: mas, afinal, há provas de que sempre houve homossexualidade entre os negros na África? A ativista Sônia Regina de Paula Leite, 50, da CoordenaçãoNacional de Entidades Negras (CONEN), alerta para a dificuldade em fazer esselevantamento. Para ela, na África Negra, "houve, há muitos séculos, um período de matriarcado. Depois, seguiu-se o patriarcado. Nesse contexto, é muito difícil um discurso que não seja referente à sexualidade masculina heterossexual. Não há muitos dados".

De fato, mesmo sobre o período escravocrata, os documentos sãoescassos. Em seu artigo "Escravidão e homossexualidade", de 1986, opróprio Mott reconhece: "Os 'sodomitas' viviam na mais completa clandestinidade. A história dos homossexuais do período colonial defronta-se com a problemática de dispor como fonte documental quase exclusivamente deprocessos inquisitoriais".

A pesquisa de Mott nos arquivos da Inquisição também encontrou relatos demonstrando que, em diferentes etnias, os homossexuais, além de atuantes, dominavam os conhecimentos místicos, mágicos e médicos como xamãs. Senão dá para generalizar e dizer que toda a África antiga, diferente da atual, era 'friendly', as pesquisas apontam para o fato de que, além de haver homossexualidade entre os nativos, ela provavelmente não era condenada pelo menos em alguns grupos.

No Brasil, ainda segundo Mott, parte dos cativos teria trazido essa herança. No entanto, o próprio ambiente escravocrata tinha elementos para estimular o sexo gay, como o excesso da população masculina negra em relação à feminina - "problema" pelo qual os brancos também passavam- e, claro, a dominação do corpo do negro pelos senhores.

Essa dominação se traduzia não apenas no abuso sexual das negras,mas também de integrantes do sexo masculino, fossem a




segunda-feira, 4 de abril de 2016

A solidão e falta de esperança do preto gay.

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Desde cedo, eu nunca tive muitas figuras de preto gay para me representar ou para me contemplar na minha vida, eu tive sempre que me contentar com alguns amigos "héteros" que em um futuro próximo se aceitaram como bissexuais. E assim por sorte do destino, dei início a meios relacionamentos que eram bem escassos.

Tenho certeza que muitos pretos já sentiram na pele como é ser deixado como segunda, terceira ou até mesmo não ser a opção de outros garotos, porque segundo eles "você não faz o tipo dele". Eu lembro que toda vez que eu ia pra algumas festas, eu sempre acabava "segurando vela", enquanto isso, todos meus amigos brancos estavam se pegando com várias pessoas. E é claro que eu ficava chateado por não me sentir desejado, passava hora em frente ao espelho desejando que meu nariz fosse menor, que minha boca fosse mais fina, que meu cabelo fosse mais liso, que minha pele fosse mais clara, pois sabia que só assim aquelas pessoas do meu meio iriam me desejar.

E eu te pergunto o que é esse tal do "gosto pessoal". Por que seu "gosto pessoal" é sempre o cara musculoso, branco e com traços finos? Você já se perguntou o por que disso? Eu te respondo. Gosto é construção social. A sociedade molda o seu "gosto" todos os dias na televisão, nos filmes, nas revistas e você acredita que sempre gostou daquilo que te "atrai". Não me surpreende ver meus amigos se apaixonarem por garotos iguais aos da Colírio da Capricho e dando fora nos demais que não atendem por aquele padrão estabelecido.

Outra coisa, nós pretos não podemos ter o privilégio de ter um amorafrocentrado, porque sempre outro preto com um jeito mais masculino que o nosso está lá bancando o palmiteiro e namorando uma pessoa branca. E exibe ele como se fosse seu maior prêmio, sinal de status ou qualquer outra bobeira que foi criada por essa sociedade porca. Ele se submete a ser tratado como um pênis ambulante para poder ter alguém. E no fundo, isso é triste.

E é nesse vai e volta de "gosto pessoal" que os pretos estão lá sozinhos, procurando defeitos neles mesmos, com sua auto-estima totalmente destruída, porque nunca se sentem bons suficientes para alguém e quando se sentem bem consigo mesmo, nós ouvimos vários "você não é isso tudo", "baixa essa bola aí que você não é bonito". Só somos procurados por curiosidade e para sermos hipersexualizados pelo gay padrão que quer transar com a gente, porque negros tem pênis grande e é "quente na cama". Não somos objetos para os prazeres imundos de vocês. E se vocês acham que nosso pau é grande, é porque vocês não viram o tamanho do nosso ódio.

Eu sou inteligente, sou engraçado, companheiro e até bonito. Então, por que os outros não me vêem com os mesmo olhos que eu me vejo? Não importa a porcentagem que nós bichas negras sejamos interessantes, nós sempre vamos ficar como segunda opção por causa daquela gay branco que nem é tão interessante assim, mas é padrão. Vocês entendem que nós negros estamos sempre tendo que provar que somos bons suficientes para algo ou para alguém? E já perceberam que temos que ser 400 vezes melhor que um branco que é 100 vezes ruim em algo para sermos notados?

A verdade é que ninguém quer a bicha negra. Só se for pra uma transa casual, bem escondida, discreta, no escuro pra ninguém ver. E a desculpa é sempre a mesma: "Eu não quero um relacionamento sério no momento", mas no outro dia, nós vemos que ele entrou em um relacionamento com fulaninho padrãozinho da silva. Além disso, sempre somos feitos de pombo correio entre o boyzinho e nosso amigo padrão.

Nós bichas pretas lutamos contra racismo, homofobia, hipersexualização e uma porrada de outros preconceitos pessoais que cada um sofre, nós nos sentimos um lixo, um monstro e ainda assim temos que arrumar tempo para nos amar e levantar nossa auto-estima. Porque não existe nada pior que uma bicha preta solitária que não se ama, né? Ah, dá um tempo branco! É muito fácil vocês falarem isso, vocês sempre foram amados e tratados como deuses.

Se sentir assim é muito frustrante, triste e doloroso, mas há algo que me incomoda muito mais e é ouvir pessoas brancas falando de solidão. Esse tipo de pessoa está há dois dias sem beijar ou levou um fora de outro gay padrão de 700 curtidas no instagram e fala de se sentir solitário e etc. Vocês não sabem o que é isso, e provalvemente é bem possível que nunca saibam. Parem de desfazer do sofrimento alheio. Azaração, pegação e mil namoros é coisa de gente branca.

O empoderamento negro é uma luta árdua e diária. É muito mais que apenas narcisismo, é resistência, é afronte, é cultivar um amor que nunca foi lhe oferecido. Não reclame daquele negro que posta foto todo dia, daquela garota que anda de nariz em pé e "se acha o ultimo biscoito do pacote". E como diz meus amigos brancos, nós não somos isso tudo. E é verdade. NÓS SOMOS MUITO MAIS. SOMOS FABULOSOS E MARAVILHOSOS!

Esse texto vai para todos amigos negros que se sentem assim da mesma forma. Não estou mendigando afeto de ninguém, mas sim, abrindo seus olhos sobre o quanto a questão do gosto pessoal machuca, o quanto nos sentimos inferiores e menosprezados. Esse texto é para nos empoderar, é para todos meus irmãos que se sentem da mesma forma. Coloquem seus turbantes, armem seus crespos, sorriam e seguimos em frente. Força para todos nós!

 E como diz meu amigo Ezio: Beije seu preto em praça pública!


*Afrocentrado: Relacionamento entre duas pessoas negras.

*Palmiteiro: Homem negro que se relaciona com pessoas brancas por status, como se fosse um prêmio e acaba menosprezando pessoas negras. 

FONTE: http://turbantei.tumblr.com/post/130157678369/a-solid%C3%A3o-e-falta-de-esperan%C3%A7a-do-preto-gay